6 de jun de 2011

Fundamentos do Sistema de Resgate Aeromédico

O serviço tático emergencial de resgate ao combatente ferido em serviço não é uma entidade única, mas uma cadeia de serviços envolvendo pessoal e equipamentos. Sua existência data da década de 60 quando os americanos observaram, durante a guerra do Vietnã, que o resgate do ferido, com a realização do atendimento emergencial no próprio local do incidente, reduzia a mortalidade e a morbidade dos ferimentos 1,2.

Com o advento da especialidade Medicina de Desastres e Catástrofes na década de setenta, um ramo da medicina de emergência, passou-se a priorizar o início do suporte básico e avançado de vida, praticado pelo próprio pessoal de combate, para se obter taxas de mortalidade progressivamente menores ao longo das quatro últimas décadas, sobretudo em vítimas de lesões por projéteis de armas de fogo3,4,5. No entanto, o uso cada vez mais freqüente dos projéteis de alta velocidade (PAFs) nas armas de conflitos, inclusive civis, provocou um aumento da mortalidade das lesões a despeito dos esforços e do avanço da oferta de sistemas de resgate rápido e de abordagem com suporte avançado de vida a partir do momento em que ocorre o ferimento 6.

Mais recentemente, durante as guerras do Afeganistão e do Iraque, o corpo de saúde das forças armadas dos Estados Unidos em conjunto com autoridades militares desenvolveu artefatos mais eficientes de proteção balística sobre a cabeça, tronco, abdome e pélvis dos soldados o que resultou em lesões de menor gravidade e que atingem mais os membros superiores e inferiores. Esse fato, em conjunto com um sistema eficaz de atendimento pré-hospitalar, de remoção aeromédica rápida e objetiva (empregando unidades voadoras de tratamento intensivo) e da sistematização dos destinos de evacuação médica para centros dotados de melhor tecnologia, promoveu uma reversão das taxas de mortalidade de 33% na segunda guerra para 2% nos dias atuais 7.

O lastro que embasa essa adoção de estratégias é o fato de que os pacientes criticamente feridos atendidos em um centro cirúrgico com condições mínimas de abordagem em até uma hora após o incidente traumático têm taxas de sobrevida significativamente maiores do que aqueles que não receberam tal presteza no atendimento, configurando o atendimento no chamado golden time de 60 minutos ou golden hour 8,9. Mais ainda, se o tempo de resgate em cena não ultrapassa os 10 minutos, aproveita-se também o que se denomina de platinum time reduzindo ainda mais a mortalidade e morbidade das lesões 8,9,10,11.



Levando-se em conta que no Rio de Janeiro as armas que empregam PAFs de alta velocidade são usadas pela PMERJ bem como por meliantes, que o trânsito é progressivamente mais moroso e que o emprego de aeronaves permite o atendimento em 10-17 minutos na maior parte dos casos 10, torna-se justificada e necessária a existência de um sistema de resgate e evacuação aeromédico para policiais militares feridos em serviço no Estado do Rio de Janeiro.

REFERÊNCIAS BICLIOGRÁFICAS:


1. Committee of Emergency Medical Services, National Academy of Sciences. Emergency medical services at midpassage. Washington, DC:National Academy of Sciences, 1978.

2. Allen R, McAfee J. Tactical Combat Casualty Care in Special Operations. In: Pararescue Medication and Procedure Handbook. USAF; 2003:1-48.).

3. Baxt WG ET AL. The impact of advanced prehospital emergency care on the mortality of severely brain-injured patients. J Trauma 1987;27:365-342.



4. Krymchantowski AV. Atendimento emergencial pré-hospitalar ao baleado de crânio. Jornal Brasileiro de Emergência. 1994;2:6-8.



5. Krymchantowski AV. Lesões por projéteis de armas de fogo. Revista Brasileira de Emergência Pré-Hospitalar e Medicina de Desastres. 1995;2:23-25.

6. Krymchantowski AV. Lesões por projéteis de alta velocidade. In: Evandro Freire. (Org.). Trauma. A Doença dos Séculos. 1 ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2001, v. 1, p. 389-402.

7. Landstuhl, uma escala entre o Iraque e a vida. O Globo, 2º edição, 19/dezembro/2004, caderno O Mundo.

8. Caroline NL. Multiple Injuries: Summary of Advanced Trauma Life Support. In: Emergency Care in The Streets. Fourth Edition. Boston:Little, Brown and Company Inc. 1991:389-400.

9. Bledsoe et al., Paramedic Care: Principles & Practice, Volume 4: Trauma Emergencies, 3rd. Ed. New Jersey:Pearson Education, Inc. 2009:322-368.

10.Ribeiro Jr C. Operações Aeromédicas no Estado do Rio de Janeiro. Relato Preliminar. Revista Brasileira de Emergência Pré-Hospitalar e Medicina de Desastres. 1994;1:8-13.

11.Campbell AE, Stevens JT, Charpentier L. Assessment and initial management of the trauma patient. In: Campbell JE (Ed). International Trauma Life Support for Pre Hospital Care Providers. New Jersey:Pearson Education Inc. 2008:27-44.